Esses dias dei um girassol para ela.
Dourado para entrar em sintonia com sua pele,
banhado para ser dela.
E, em súbito, uma alegria me arrematou
já havia me entregado a ela, mas a sensação foi diferente:
de que estava onde deveria estar, de ser quem eu gostaria de ser.
Então, percebi que nada restava das minhas dores.
Ela é sinônimo de alegria para mim;
Ela é sinônimo do que o sol faz com as flores.

Para ela

Tenho seu rosto desenhado
em pequenos quadros do meu pensamento
em quadros pintados na calçada
De cada bar e esquina
que bebemos e nos enamoramos.

Cada canto tem um pouco do seu cheiro
do seu encanto, do seu beijo.
Algumas noites sinto
você enluarada na brisa fresca
você deitada com seu cabelo em relevo
E de dia me levanto
para ver se é um dos dias que te vejo
Ou dia que te beijo em sonho,
sentindo teu perfume na maresia
para depois do sonho
te beijar em poesia.

Nosso amor é companhia.
Um caminho tatuado de nostalgia e carinho.
Mesmo na ausência está comigo
e quando juntos, de alma.
Tudo nos foi escrito
nas linhas do céu e das coincidências
Se não acreditei em destino um dia,
com veemência, hoje passo a crer
porque das coincidências que tenho sonhado a tempos
tudo agora pertence a você.

Cada girassol tem seu cheiro,
cada véu tem seu linho
cada suco da laranjeira
cada suspiro tem seu sentido
E tudo na paisagem se torna teu
como o sol e as marés,
como você e eu.

Apêndice

Eu não sinto mais calor,
nem sinto mais o frio.
Por vezes me vejo
Misturando o mar com o rio.
Tenho sono pesado,
mas acordo cedo.
Tenho mania de doar,
mas percebo o medo
em amar demais,
em deixar demais.
Como quem faz doces
e esquece do aroma,
esquece dos sabores.
Como um artista que,
ao pintar livremente,
esquece as cores.

Cada vez que me aprofundo,
distante eu vejo:
Cada vez que fui tolo,
fui sozinho.
Cada vez que acertei,
fui cercado.
E dessas e tantas
construí o lar de alegrias
fundado em bases arenosas.

Posse

E caem os cabelos, a voz , a pele
O tempo precioso, em vão.
E perde-se a memória, a história, os livros
e o brilho dos olhos na boca que cala.
E perde-se quem se admira,
o sangue, a família.
Perde-se o encanto, as roupas no varal
a origem dos índios, a tinta,
os direitos civis, o carnaval.
Sem reclamar!
Perdem-se, de novo, em nome de deus
e separam-se as mães dos filhos,
a cabeça da razão.
Separam a terra do fazendeiro,
a unha da mão
e a boca da fome.
Perde-se o emprego, o trabalho digno,
a terra própria.
E tudo que é indispensável, é perdido
como o aroma das rosas,
a carteira de motorista
e a vontade.

 

 

 

Calma

Não se apresse, meu amor
ainda é de dia.
Os talheres estão guardados
a louça está lavada
ainda é dia.
Vamos levantar tarde
desse lugar que o tempo esqueceu
Respirando nossos suspiros
matando e deixando vivo
o que é meu e o que é seu.
Vamos abrir as cortinas
para o mundo inteiro ver
que a poesia do nosso corpo
é só de se querer.
Não precisamos de pressa
porque o amor não é apressado.
Ele é paciente,
leve e desapegado.
E pode esperar tranquilo,
em silêncio,
o seu cuidado.

Teoria

Eu falei pra ela
juro que falei!
ela disse que viu
se ouviu eu não sei.
Mas mostrei pra ela
que podia ficar,
pintei aquarela,
mostrei o que me faz sonhar.
Depositei na conta:
pincéis, vinhos, poesia
e mostrei além da ponta
todas aquelas teorias.
Fiz poema com seu corpo
e tracei sinuosos pergaminhos
de línguas variadas
de suspiros e desatinos.
Decorei o curto caminho
do metrô até seu prédio
gravei na mente da alma
seus caminhos, seu trajeto
e cada verso que escrevi
tornou-se seu e não meu
cada sentimento que senti
tornou-se seu e não meu.
Por isso, meu bem, vou lendo
como páginas de um só livro
e abro para só você ver
meu coração, poema vivo.

Liberdade

As palavras entoadas
entortam as grades do seu apartamento
onde nossa rua alaga
de chuva forte e sofrimento
quebrando o berço tranquilo
numa ilusão de contentamento

Saímos em conjunto
andamos tolos aos montes
com a mente nua engessada
que seca e corrói nossas fontes.
Os pássaros trazem a noticia
de um lugar sem sofrimento
para alimentar nossa sede
das necessidades do argumento

Mas não entendo nada
desse coro que entoa
frases escritas antes de meu pai
repetidas à toa.
-Como uma mentira perpetuada
se torna verdade que ocupa
se todos dormem de madrugada
e nesse horário ninguém escuta?

Pois não sei responder.
Me espanto com a vida que vejo
nos mercados, nas favelas
em gente simples da cidade
cuja ambição é assistir novela
e de manhã ir pro trabalho
abraçando as sequelas
Uma vida operária:
de poucas escolhas e muitas regras.

Gosto da minha visão
e da palavra que a descreve
mesmo quando é crítica, branda
como o sol que derrete a neve.
Mesmo assim, minha ideia é tudo
que tenho entre a terra e o vento,
onde me deixaram cultivar
meu coração e meu pensamento.

Fecho os meus olhos
e sonho com a liberdade
vejo uma luz no fim do túnel
bonita demais para a realidade.
Porém acordo com os olhos marejados
de sonhos raros que invento.
Na ilusão não posso ser feliz
ou ter algum contentamento.

E a beleza de viver, a leveza de pensar
se transformam numa fantasia
onde meu coração gostaria de morar.

Terno

Quero sentir contigo a pureza de acordar sorrindo,
sentir teu gosto como um bom vinho.
Vibrar em ousadia enquanto a noite canta nossas histórias
e a gente da risada como bons amigos.
Não vamos nos preocupar onde vai dar, se vai dar
Não vamos limitar o sentir:
morrer de rir, desabar de chorar.
Transformemos nossos danos em planos,
nossos prantos em alegria,
nossas decepções em aprendizados.
Vamos celebrar a vida
dar as mãos, correr na chuva, dormir abraçados.
Seja eternamente breve porém simples com significado.
Seremos sonho lúcido: livre porém emaranhado.
Seja belo, seja colo, seja coração selvagem
Seja quente, paixão, libertinagem.

Quero decorar o caminho até sua casa
da cor do portão ao porteiro sorridente
que me recebe mesmo descrente
e me encontra feliz quando te vejo;
Não só pelo simples desejo,
mas pela companhia verdadeira
e de ser verdadeiro o tempo inteiro.
Sabendo que quando for a hora da decisão,
do sim ou do não; se quer ir ou se quer ficar
Vou estar atento ao escutar meu coração:
que a beleza de ser livre também é ter um lugar para voltar.

Dubitável Poesia

Eu não sei mais
de que lado se põe o sol
ou de que lado vou dormir a noite
Das dúvidas de quem cruza a rua a noite,
eu sou só o que sobrou de incertezas.
Para onde vamos, que dia é, que pensamentos tens
e das cantigas enluaradas, dos bares cheios,
dos sonhadores descabidos e intrépidos
Do destino do trem até a rua das inseguranças
do caminho da saudade até a rua das lembranças

Eu sou dúvida e certeza do que não é
Estou vendido e arrematado pelo desejo de ser algo
uma idéia idealizada por mim mesmo no primeiro suspiro
Como quem almeja a verdade e não tem medo de encara-la
Como quem conhece vários caminhos numa só estrada
Estou lúcido embora indeterminado
estou valente embora machucado
esperando a fila do comboio e do sinal de partida
de dentro da minha alma
E Apaziguar a dúvida em minha vida

Estou confuso.
Como não criei objetivos,
qualquer lugar é estreito demais
para o coração grande que me deram.
Fugi para as selvas da cidade
fui até a rua com grandes ideais
mas la só encontrei prédios e casas
e quando encontrei pessoas eram todas iguais.
do que mesmo eu duvidava?
senão do meu próprio pensamento, do que?
se o que penso de mim é real, então eu penso desconexo.
Enfim, vou deixar o destino decidir
porque o destino é a parte intrínseca de nossa natureza
e da natureza de todas as coisas vivas e não-vivas
seja o seu cabelo, o seu sol, o seu mar
seja da raiz na terra, do sertanejo e do luar
e de tudo que há de vir, pode vir, se vier
da astrologia, do horóscopo, dos búzios, da mulher.
Vou aceitar a natureza como grande causadora da confusão
do Imprevisível, impossível mundo,
de nós dois, então.

Beijo não se pede

Beijo não se pede.
É calor nas entrelinhas
é mão na nuca, na cintura e desejo no olhar.
É passar a noite trocando músicas
e acordar desejando estar ali onde está.
e quando a madrugada chega
estender o cobertor na cama
para não parar no meio da nossa dança
de querer, de luar.

Que eu seja outono e você primavera.
Mas, quando juntos, sejamos verão quente
para esquentar e molhar os lençóis até a manhã sequente.
Beijo é semente
de paixão.